
São Francisco de Assis era um santo que em sua espiritualidade possuía grande proximidade e devoção à Maria. Mesmo sendo essencialmente cristocêntrico, Francisco associa as virtudes marianas como partindo do próprio Cristo e, por isso, a Maria demonstra filial ternura.
Um dos pilares da espiritualidade franciscana é a Encarnação, que para Francisco era um gesto amoroso de Deus para com a humanidade. Deste modo, a linguagem mariológica de Francisco é, antes de tudo, o louvor e ação de graças a Deus por nos ter dado Jesus Cristo por meio de uma mulher: Maria. Ela é “serva do Senhor” (cf. Lc 1,38). Foi por ela que Cristo entrou no mundo, foi por ela que ele recebeu a carne e se tornou um de nós. Por isso, ela torna-se também nossa “mediadora”; sem desconsiderarmos que Jesus é o mediador por excelência. Maria toma parte nessa mediação do Filho, ao ser ligada a Ele pela maternidade.
Seu amor inquestionável à Senhora Santa era muito forte, assim nos afirma São Boaventura: “Amava com amor indizível a Mãe do Senhor Jesus, porque o Senhor da majestade tornou-se irmão nosso, e por ela conseguimos a misericórdia. Confiando principalmente nela, depois de Cristo, constituiu-a advogada sua e dos seus frades (cf. Legenda Maior 9,3).
Maria é, para Francisco, a “Senhora pobre” (2Cel 83) e Deus, escolhendo-a por Mãe, compartilha a pobreza com ela (2ª Carta aos Fiéis 4-5) como caminho em vista da salvação dos homens. Por esse motivo Francisco exigia a pobreza dos frades, pois os coloca em relação com Cristo que foi “pobre e peregrino e vivia de esmola, ele mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos” (RNB 9,6).
Isso tocava profundamente Francisco tanto que em uma de suas hagiografias escrita por Tomás de Celano se diz: “Num dia, ao sentar-se para o almoço, um irmão lembra-lhe a pobreza da bem-aventurada Virgem e traz memória a indigência de Cristo, o filho dela. Imediatamente, ele se levanta da mesa (cf. 1Sm 20,24), solta soluços dolorosos e, banhado em lágrimas, come o resto do pão sobre a terra nua. Por isso, dizia que esta era uma virtude régia que refulgira de modo tão eminente no Rei e na Rainha.” (2 Cel 200, 4-6).
A devoção mariana permite ao Poverello viver esta dimensão teologal da pobreza e as mais profundas raízes da alegria dos “menores”. Estes, em sua própria pobreza e na dos outros, experimentam como mais importante do que todos os interesses particulares, a presença de Deus no mundo e o seu Reino que vem.
O exemplo da Mãe Santíssima torna-se modelo para todo cristão, algo alcançável e possível. Longe daquela concepção de “rainha” distante e assentada num trono glorioso ao lado de seu Filho, Maria é acessível, próxima, capaz de compadecer e proteger; é fonte de inspiração e passível de imitação, pois em si estão todos os dons e virtudes.
Como ponto alto de sua devoção Francisco compõe a saudação à Bem-aventurada Virgem Maria:
Ave, Senhora, Rainha santa, santa Maria mãe de Deus, virgem feita igreja e que do céu foste escolhida pelo santíssimo Pai, a quem ele consagrou com seu santíssimo e dileto Filho e com o Espírito Santo Paráclito, e em quem esteve e está toda a plenitude da graça e todo o bem! Ave, palácio do Senhor! Ave, tabernáculo do Senhor! Ave, casa do Senhor! Ave, vestimenta do Senhor! Ave, serva do Senhor! Ave, mãe do Senhor, e vós, santas virtudes todas, que pela graça e iluminação do Espírito Santo sois infundidas nos corações dos fiéis para os tornardes de infiéis em fiéis a Deus!
